Publicação híbrida, avaliação crítica

Um post anterior tratou dos dois caminhos possíveis para lançar um livro: publicação tradicional (por editora) e autopublicação (com auxílio de prestadores de serviços). Quando escrevi, achei que (modéstia à parte, rs!) seria uma mão na roda para quem acabou de ter a ideia de publicar e não sabia por onde começar, um bom recurso para a decisão “enviar para editoras ou publicar por conta própria?”

Continuo acreditando em tudo que está escrito lá, claro!, mas por alguns e-mails que recebi e por algumas dúvidas que vejo com frequência em grupos de autores, percebi que deixei uma ponta solta no outro post, e cabe aprofundar o tema. Não ficou claro que eu estava falando de uma divisão didática, de dois paradigmas, que a realidade é muito mais complexa.

Agora, quero que pensemos em casos como esses: a editora paga revisão e impressão, mas o autor paga capa e projeto gráfico (ou qualquer outra divisão dos custos); o autor arca com a edição do texto e projeto gráfico, mas impressão e distribuição correm pelo sistema da empresa (o exemplo do Clube de Autores)…

Nesses casos, e nos semelhantes, como fica? Se os critérios mais objetivos que definem a publicação por editora são investimento e responsabilidade editorial da empresa, e os da autopublicação (via prestadora de serviços) são custos por conta do autor e independência… como entender essas formas híbridas? E, mais, como saber se a determinada oferta de publicação é boa, séria, se vale a pena?

De novo, é melhor pensarmos em adequação. Dessa vez, adequação do que é oferecido com o valor cobrado (se for o caso), com a expectativa do autor e com o perfil do texto. Em abstrato, fica um pouco difícil de explicar e entender, por outro lado, cada caso é diferente, não há regra geral óbvia. Por isso eu acredito na formação crítica do autor quanto a esses aspetos, e por isso criei esse blog. Com o tempo, pesquisando, se informando, atentando para a experiência de outros autores, vai ficar mais fácil fazer a avaliação de cada empresa, de cada opção disponível.

Naquele primeiro exemplo, em que editora e autor dividem os custos, para mim, o que parece justo é uma redistribuição dos valores: se na publicação tradicional os direitos autorais giram em torno de 8% a 12%, quando o autor divide custos com a editora, ele deve receber mais. Mas esse caso continua sendo um pouco abstrato, certo?

Para ilustrar melhor, encerro o post apresentando uma situação real de forma mais detalhada:

No mês passado, uma colega que acabou de concluir o mestrado em uma universidade pública de Minas Gerais contou que recebeu uma proposta de publicação de sua dissertação. O e-mail chegou no nome de uma representante do Departamento de Aquisições da editora, o que causa boa impressão, afinal, este é o nome que editoras (especialmente as estrangeiras) costumam usar para o setor responsável por pesquisar novas obras e acertar os detalhes, o contrato, para publicação.

Trata-se de uma empresa com site organizado, FAQ, informações para contato… Nada de golpe, nada ilegal, nenhuma fraude. Ela é especializada em obras de cunho acadêmico e é a ramificação brasileira de uma empresa alemã. Ainda assim, é uma publicação que, a meu ver, não valia a pena para essa autora, que gostaria de ampliar o público de sua dissertação, encarando esse livro como o primeiro de um projeto de carreira como autora.

Quais eram as condições: nenhum custo para o autor; recebimento de um exemplar digital; possibilidade de desconto na compra do livro na loja virtual parceira; remuneração de 12% sobre o preço líquido de venda (ou seja, abatidos os impostos e os descontos para bibliotecas e lojas), a ser paga sempre que a renda mensal do livro for superior a R$150 dentro do período estabelecido (se a média não for alcançada, o autor recebe vales para trocar por livros do site). Não tenho detalhes sobre o contrato, portanto não sei dizer se haveria exclusividade, qual prazo, como seria o encerramento.

Como seria o trabalho editorial: não haveria revisão por parte da editora (nenhum tipo de trabalho com o texto); a equipe elaboraria a capa; a impressão seria sob demanda. Acerca da distribuição, haveria venda de e-books e livros físicos por sites parceiros (nenhum de que eu já tivesse ouvido falar), envio para alguns sites de bibliotecas (igualmente desconhecidas para mim) e venda em redes famosas como a Amazon, além de mencionarem a possibilidade de atenderem os pedidos de lojas convencionais.

Bom, essa era a descrição da proposta a que tive acesso, completada por uma visita ao site. Por que isso não me parece vantajoso?

Em primeiríssimo lugar: acho incongruente que editoras não preparem/revisem/editem o material que publicam; na minha opinião, isso envolve o cerne do trabalho do editor e não consigo conceber como essa etapa pode ser eliminada da linha de produção de uma empresa que carrega esse nome. Além disso, e aqui não tenho “provas”, apenas meu bom senso: duvido do processo de seleção dos originais; acredito que não haja uma avaliação criteriosa, tampouco a formação de um catálogo coerente.

Em segundo lugar, não é financeiramente vantajoso: você só recebe se juntar determinada quantia em vendas, do contrário, fica com vales. Por mais otimistas que sejamos, é improvável que um livro de estreia alcance todas as vendas necessárias, por vários meses. Na prática, fica a sensação de que seu livro vai ser vendido de graça por você, e só a empresa conseguirá arrecadar com ele. Aliás, ainda que cada título venda individualmente muito pouco, imagine que a editora e suas ramificações internacionais realizam esse procedimento em larga escala: seriam poucas vendas individuais, mas de milhares de títulos! (Esse modelo de negócios casa bem com a minha suspeita de catálogo frouxo e de seleção vaga, além de ser um ótimo exemplo de cauda longa, tema que abordarei em breve, em posts futuros.)

Por tudo que apresentei acima, esse exemplo é híbrido: custos ficam por conta da editora, mas a responsabilidade editorial (revisão, trato do texto) fica por conta do autor. Não recomendo para quem busca qualidade editorial, curadoria, mas talvez seja uma boa opção para quem se preocupa em ter o livro publicado e não autopublicado, pois é bem rápido e pouco trabalhoso para o autor. No meio acadêmico, por exemplo, em que uma lógica perversa exige o preenchimento do Currículo Lattes com publicações, pode ser uma alternativa… (Aliás, essa reflexão tem tem a ver com o surgimento da matriz dessa editora na Alemanha. De acordo com uma pesquisa rapidinha e bem superficial, parece que lá é necessária a publicação dos TCCs para validação do diploma de alguns cursos.)

Para encerrarmos, indico alguns links em inglês que tratam especificamente do exemplo que dissequei neste post: Please do not publish my thesis, Why you shouldn’t… e A must to avoid.

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4 comentários sobre “Publicação híbrida, avaliação crítica

  1. “Esse modelo de negócios casa bem com a minha suspeita de catálogo frouxo e de seleção vaga, além de ser um ótimo exemplo de cauda longa”. Eis uma excelente descrição do clube de autores (citado no artigo) e outros serviços semelhantes. Uma rápida lida em algumas páginas disponibilizadas das obras mostra o desastre que são em todos os sentidos. E a principal vitrine é exatamente essa: suba seu livro sem qualquer análise editorial. Aliás, todo candidato a autor deve desconfiar de “editoras” que passam “a sensação de que seu livro vai ser vendido de graça por você, e só a empresa conseguirá arrecadar com ele”. Ou de “editoras” que lucram vendendo o livro ao próprio autor.

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    1. Oi, Amâncio, eu não me referia ao Clube de Autores quando mencionei catálogo frouxo, eu estava expressando minha interpretação do exemplo detalhado no post. O Clube é uma plataforma de autopublicação assumida, digamos assim, e prestam um bom serviço desse tipo. Eles não têm mesmo catálogo e não fazem seleção alguma, o que deixam claro em seu próprio site: http://www.clubedeautores.com.br/webpage/tour. É claro que isso pode não ser o melhor caminho, a melhor opção para alguns projetos, pode não atender expectativas reais dos autores… Mas também pode se encaixar bem em outros projetos e o grande mérito, a meu ver, é a praticidade combinada com transparência.

      O que eu critico (e do que apresento apenas um caso no post) são aqueles serviços que não deixam muito claro a que vieram; dão a entender que são editoras propriamente ditas, mas são uma mistura de prestadoras de serviços para autopublicação com alguns aspectos de editora ou gráfica. Nesses casos, sim, concordo com você que a tendência é o desastre. Principalmente quando, mesmo sem ilegalidade, nem fraude, as informações sobre o serviço ficam um pouco soltas, como se fosse uma estratégia para se apropriar das emoções e dos desejos dos escritores.

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  2. Oi, Bia! Gostei muito do post, acho que dá pra esclarecer muitas coisas. É importante também lembrar que, além do cuidado com o texto, no exemplo que você mencionou fica também faltando a divulgação do livro, que é o que poderia impulsionar as vendas de verdade, se feito por uma editora (e não pelo coitado do autor, pedindo de boca em boca para alguém comprar o livro).
    Fico no aguardo do post sobre o conceito de cauda longa, que eu nunca entendi. xP

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